Natalícia e o vestido azul
- 29 de abr.
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Nossa Senhora do Socorro (SE), 24 de abril de 2026. Na calçada do Restaurante Popular Frei Miguel, no Bairro João Alves, a voracidade com que Natalícia Lima da Silva remexia as pilhas de roupas, colocadas sobre a mesa, era acompanhada de uma sensação de felicidade, testemunhada pelos que aguardavam atendimento no primeiro ‘Socorro Pop Rua’.
A ação realizada pelas secretarias da Saúde e da Assistência Social ofertou diversos serviços, como alistamento e segunda via do Título Eleitoral e atualização do calendário vacinal, voltados às pessoas em situação de rua que acessam os equipamentos sociais do município ou vivem nas ruas da cidade localizada na Região Metropolitana de Aracaju.
A sergipana, que nasceu na cidade banhada pelo Rio São Francisco, interrompeu os estudos na quinta série do ensino fundamental depois de ficar órfã de pai e mãe, quando tinha apenas 11 anos. Ela não revelou as circunstâncias das mortes, mas disse que tem três irmãos.
Aquela jovem mulher de 27 anos carregava muitas histórias, colecionadas em quase duas décadas nas ruas. Ela encontrou na ação o momento oportuno para retirar a roupa impregnada pela sujeira da calçada e pela água da chuva que insistia em cair naquela manhã de temperaturas mais amenas.
No fundo, no fundo, Natalícia gostaria mesmo era de que aquele momento fosse o começo de um novo ciclo. E, por alguns segundos, o vestido azul possibilitou essa sensação. Dava para observar no olhar da propriaense [gentílico para quem nasce no município sergipano de Propriá, Baixo São Francisco Sergipano] que brilhava como um diamante polido ao receber os raios do sol.
Ao encostar a peça no corpo e perceber que cabia nele, as marcas da violência física e sexual — sofrida por Natali nas andanças pela Região Metropolitana de Aracaju — ficaram em segundo plano. Não na mente!
— Tem homem que gosta de estuprar mulher, como fizeram comigo. Olha aqui como estou, com o rosto todo ferido. Aproveitaram que eu estava dormindo e tentaram me estuprar. Me defendi. Aí o cara foi preso em flagrante pela polícia. Está preso... Só isso que eu tenho a dizer!
Nas ruas, dor e alegria se alternam o tempo todo. E, em meio ao trauma das noites mal dormidas, Natali ainda sonha em ser princesa.
— É meu sonho ser uma princesa. Sair da rua e cuidar dos cachorrinhos, que eu gosto muito dos animais (gato, cachorro, aves...) e também cuidar dos moradores de rua. Deus tá aí no controle. Deus disse: “Cuide dos deles que ajudarei”.
A princesa do vestido azul também tinha um segundo sonho:
— Ser noiva. Casar na igreja, vestida de noiva, e sair dessa vida.
O sorriso de canto a canto acompanhava a fala, que também estava marcada por horas de um jejum forçado, motivado pela ausência de dinheiro. Pelo menos pelas próximas horas, Natalícia teria comida em fartura. O café da manhã estava garantido!
— Comer um pouco. Encher a minha barriga, que estou com fome. Tomar um cafezinho e ajeitar o cabelo.




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