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“Espero não sentir mais vontade de comer lixo”, diz homem ao entrar na Câmara Municipal de Aracaju

  • 21 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de ago. de 2025

Por Anderson Barbosa.

Quando o alagoano Darlan da Silva Gomes, de 34 anos, pisou no Plenário Vereador Abrahão Crispim, na tarde desta quinta-feira (21), na Câmara de Vereadores de Aracaju, sentiu que era o início de um novo tempo. Ele participou da audiência pública que tratou dos desafios, políticas públicas e caminhos para garantir os direitos dele e das outras pessoas que vivem em situação de rua na capital sergipana.


Como Darlan, são 1.174 homens e mulheres em situação de rua (Fonte: CadÚnico) na cidade de Aracaju ou 623 pessoas acima de 18 anos dormindo nas praças e calçadas (Fonte: Censo da População em Situação de Rua de Aracaju).


“O que está acontecendo aqui é um sonho para nós que moramos na rua. Nos dá um certo conforto, uma certa confiança de que as coisas vão melhorar. Que vou sair da rua, que não vou ver as pessoas comendo do lixo e que nem vou sentir vontade de comer dessa forma também. Já comi o lixo da rua e vejo as pessoas comendo. Espero não sentir mais vontade de comer lixo”, resumiu parte do sofrimento vivido em três anos de situação de rua.


Além do 1º secretário da mesa diretora da Casa, vereador Sargento Byron Estrela do Mar, que presidiu a audiência [solicitada pela vereadora Moena Valadares] Darlan ouviu parte da administração municipal e técnicos envolvidos no trabalho de Alta e Média Complexidade do Município de Aracaju.


“Eu sou do CAPES, devido à minha mente estar desestabilizada, como eu disse, por causa de muitas memórias ruins. O Centro Pop me dá apoio nas refeições e no posto Maria do Céu estou fazendo tratamento nos dentes, por causa do uso de droga — que eu também parei, graças ao CAPES, graças a Deus”, explicou.


“Esta audiência aproxima o parlamento da sociedade. A situação das pessoas em situação de rua é uma causa de toda a sociedade”, afirmou o único vereador presente na audiência.

“Tem gente que finge ajudar, mas quer se livrar. Joga o morador em situação de rua lá não sei pra onde, aí fica sem assistência, e acaba voltando. E não acontece a ressocialização. Nunca vai acontecer dessa forma. Eu estou em situação de rua, não moro na rua”, complementou Darlan.


Em Aracaju, há 135 vagas em três abrigos — 90 delas nos dois mantidos pela Prefeitura. “Nós adoecemos quando somos portadores de um ‘não’. Não é fácil sentar com a pessoa em situação de rua, que está morrendo de medo porque vai dormir na rua, e ter que dizer ‘não’”, desabafou o coordenador-geral do Sindicato da Assistência Social de Sergipe.


“Precisamos exigir do Estado políticas públicas para essas famílias historicamente invisibilizadas. Como disse Santo Tomás de Aquino: ‘Nem louvar a Deus se pode quando se está com fome’”, disse o defensor público do Estado de Sergipe, Sérgio Barreto Moraes.


“Estamos lutando para oferecer a eles um serviço de qualidade. Que, num futuro próximo, voltem ao convívio familiar e comunitário”, finalizou a secretária da Família e da Assistência Social de Aracaju, Simone Valadares.


Darlan, que tem três filhas (de 6, 8 e 12 anos), ouviu tudo atentamente. E continuou acreditando no sentimento que teve ao chegar ao parlamento. Por enquanto, os R$ 600,00 do auxílio não permitem transformar a vida dele, mas nada o impede de sonhar com a reconstrução da família.


“Eu penso em ter de volta o amor delas, a confiança. Mas, pra isso acontecer, eu devo estar estabilizado mentalmente, socialmente, entendeu? E ter um lugar pra ficar onde as minhas filhas não sintam vergonha de mim. Também pelo meu trabalho, que é reciclagem. E como eu tomo medicação forte, não tem horário pra eu trabalhar. Eu quero estar no barraquinho meu”, falou com lágrimas nos olhos.


Ao terminar a audiência, Darlan voltou à rotina dele. Trabalhar nas ruas catando material reciclável e continuar acreditando que a esperança não será mais um desejo frustado.



 
 
 

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