Um copo d’água, pelo amor de Deus! (cadê a adutora?!)*
- 14 de set. de 2025
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Algumas horas sem água na torneira foram suficientes para causar transtornos a milhares de pessoas na Região Metropolitana de Aracaju, após a Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) confirmar, na última sexta-feira (12), o rompimento da adutora do São Francisco.
Quem não tem reservatórios em casa, por exemplo, enfrenta ainda mais dificuldade. Nos condomínios, a rotina foi alterada com a adoção de medidas como racionamento e mensagens pedindo empatia de todos neste momento difícil.
Muita gente só percebeu o problema ao apertar o botão da descarga e notar que não havia água. E se desesperou ao não ter outra opção senão conviver com o excremento até que o abastecimento seja restabelecido.
Outros chegaram a molhar o corpo, passar sabão, mas, por questão de segundos, a água desapareceu. Foi preciso se limpar com a toalha. E teve gente que percebeu que ficar algumas horas sem banho traz mau cheiro, vergonha de conviver em sociedade e, se a situação persistir, pode até causar problemas de saúde.
Sim, são situações chatas, comprometedoras, que ninguém merece enfrentar. E aí me pego pensando: como é difícil para quem vive em guerra constante por falta d’água. Como deve ser traumático ouvir o filho pedir um copo d’água e dizer que não tem. Nessas condições, até as lágrimas são secas.
Mas não é necessário ir muito longe para encontra histórias semelhantes. Basta passar pelo centro da cidade ou até mesmo ir até a esquina da nossa casa. Em Aracaju, 623 pessoas enfrentam a falta d’água todos os dias do ano — 365, ou 366 nos anos bissextos. Segundo o Censo Pop Rua 2024, essas pessoas não têm água potável para beber, lavar as mãos, limpar o corpo ou os cabelos. Sequer têm um banheiro para fazer suas necessidades ou tomar um bom chuveirão.
Na praça da Câmara de Vereadores, um dos banheiros públicos mais antigos da cidade – onde há uma grande concentração dessas pessoas - que poderia facilitar a vida dessas pessoas, está fechado há anos, cercado por tapumes, negando um direito que é de todos. Inclusive dos que vivem em situação de rua.

A Prefeitura de Aracaju cobrou esclarecimentos ao Governo do Estado e à Iguá Saneamento sobre o rompimento da adutora. Disse que montou uma força-tarefa para atender as regiões mais afetadas. E afirmou, tudo isso por nota, que a situação “impacta significativamente a economia local, em especial hotéis, bares, restaurantes e demais atividades que dependem do abastecimento para manter padrões de qualidade e segurança”.
Desde sexta-feira, junto roupas para lavar quando tudo isso normalizar. A louça tem hora marcada para ser lavada. E o banho — de gato — também tem horário. Mas quando tudo isso passar, quando o rompimento for sanado, terei minha rotina de volta: água em abundância na torneira, no chuveiro e na descarga (ufa!). Mas, em algum ponto dessa cidade, ainda haverá alguém clamando: “Um copo d’água, pelo amor de Deus!”. Essas pessoas certamente terão uma porta na cara ou mesmo uma indiferença, por acreditar que levam insegurança.

O exemplo mora ao lado
Em São Cristóvão, na Grande Aracaju, a empresa RR Conect, em um gesto de empatia com quem não tem acesso à água, disponibilizou duas torneiras à comunidade para retirada de água mineral, a qualquer hora do dia. Pessoas em situação de rua e andarilhos, por exemplo, podem usar livremente o espaço. E antes que alguém diga que “o povo não sabe manter”, vale destacar: o local funciona assim há anos, sem vandalismo, sem necessidade de vigilância. Qualquer cidadão encosta, pega a água e fecha a torneira para o próximo. Tudo isso sem pagar nada.
O Que Vem das Ruas conversou com um funcionário da empresa, através do Instagram, e descobriu que se trata de um poço artesiano. Após testes, uma amostra da água foi aprovada para consumo humano. “Com o tempo, as pessoas começaram a saber que essa água poderia ser consumida, até porque temos um bebedouro em nossa recepção, e a água vem desse poço. Existia uma torneira (usada para molhar o jardim), e com o passar do tempo, as pessoas começaram a pegar água nela — os próprios colaboradores, familiares e a vizinhança também”, contou.
Em 2023, a empresa passou por uma reforma na fachada. “A torneira saiu do local onde ficava antigamente. Como as pessoas já estavam habituadas a pegar essa água, o responsável decidiu construir um chafariz ao lado e deixar disponível para toda a comunidade, como sempre foi — porém de uma forma mais humana e organizada".
Cidades exemplos de cidadania e acesso à água
💧 Maceió (AL): na orla existem bebedouros que contam com água filtrada (natural ou gelada). Leia mais sobre o projeto em Maceió;
💧 Londrina (PR): desde 2022 a uma lei municipal autoriza o executivo para instalar bebedouros públicos “com água potável para atender a comunidade em geral, acessíveis a adultos, crianças, pessoas com deficiência (PcD) e animais”. 🏞️ Confira os detalhes da lei em Londrina:
💧 Campo Grande (MS): Os vereadores aprovaram o Projeto de Lei 11.802/25, da vereadora Luiza Ribeiro (PT), que obriga o município a instalar bebedouros em praças e parques da cidade. 🏛️ Veja os projetos de lei em Campo Grande.
Água: um direito de todos?

O Artigo 2º da Lei Nacional do Saneamento Básico de 2007, alterado 13 anos depois, trouxe em sua nova redação a proposta de universalização da água, com acesso eficaz para atender às necessidades da população. Apesar de estar garantido em lei, o que muitas pessoas não compreendem é o motivo desse benefício chega tão lentamente a alguns grupos populacionais — ou sequer chega, como é o caso das pessoas em situação de rua em diversas partes do planeta.
Até julho, o Brasil tinha mais de 351 mil pessoas em situação de rua registradas no Programa Cadastro Único (CadÚnico), do Governo Federal. No entanto, entidades ligadas à causa afirmam que esse número é bem maior. Para aparecer no CadÚnico e receber os benefícios do programa, é necessário apresentar documentos — algo que uma parcela significativa dessa população não possui. São os visíveis e os invisíveis no cadastro que acabam sofrendo com a ausência de água para escovar os dentes, tomar banho, lavar as mãos ou simplesmente matar a sede. Mas afinal, por que essas pessoas não são incluídas nesse benefício vital para qualquer ser vivo?
Antes de ensaiarmos uma resposta, vamos viajar no tempo. Em 1997, a Conferência das Nações Unidas sobre Água, realizada em Mar Del Plata, na Argentina, reconheceu esse elemento como essencial às necessidades básicas do ser humano. A discussão foi reforçada pelo Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em 2002, no Comentário Geral nº 15: “o direito à água (...) está intimamente relacionado com o direito à saúde, à alimentação e à moradia digna”, previstos no Tratado Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1966. Já a Resolução A/RES/64/292, de julho de 2010, formalmente reconheceu o direito à água e ao saneamento como fundamentais. Na avaliação da ONU, esse reconhecimento é essencial para a conscientização sobre todos os outros direitos humanos.
Então, por que ainda presenciamos — bem diante dos nossos olhos — a negação desse direito a milhares de brasileiros e pessoas de outras nacionalidades? Gente que não tem água dentro de casa. Que não tem sequer uma casa. Que sobrevive em lares improvisados, barracos erguidos em calçadas, praças e ruelas, e que, mesmo assim, carregam consigo a cidadania.
Durante a pandemia, o engenheiro Ricardo de Souza Moretti destacou a urgência de estratégias emergenciais para levar água a essas pessoas, permitindo que atendam às demandas básicas — e até virais. Ele sugeriu a instalação de “torneiras comunitárias, bebedouros, chafarizes, banheiros químicos e outras soluções que assegurem o acesso à água, bem como instalações sanitárias adequadas, em locais onde há concentração dessa população”. Para ele, a implementação desses equipamentos deve ser feita com o envolvimento das partes interessadas.
Em reportagem do site Rede Brasil Atual, o padre Júlio Lancellotti afirmou que a água é “um dos bens mais escassos para as famílias que moram nas ruas do Brasil”. Mais uma vez, ele chamou atenção para a necessidade de políticas públicas eficazes — não apenas discursos. Em dias de calor, é comum observar casos de desidratação que provocam dores de cabeça, tontura, náusea, distúrbios visuais, confusão mental, entre outros sintomas.
Em 2025, não dá mais para ficarmos de braços cruzados. É hora de cobrar das autoridades — começando pelas municipais, afinal é ano eleitoral — a efetivação de políticas públicas permanentes para sanar um problema que todos conhecem, mas muitos preferem ignorar. A água, assim como os demais direitos universais, precisa chegar às pessoas em situação de rua, rompendo o preconceito que alimenta o abismo social.
*Anderson Barbosa, jornalista Mestre em Comunicação (UFS), embaixador do Movimento Nacional ODS/Sergipe e idealizador do Projeto Que Vem das Ruas (finalista do Prêmio AMAERJ de Direitos Humanos)




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