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RJ - os corpos esquecidos

  • 25 de set. de 2025
  • 2 min de leitura


Rio de Janeiro, 22h - 23 de setembro de 2025: Da janela do quarto do hotel, vejo corpos espalhados na calçada da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. Um, dois, três deles protegidos por um cão de guarda. Era noite de chuva forte, um toró que caía sem piedade sobre a Cidade Maravilhosa.


A chuva, naquele primeiro dia de primavera, para alguns é bênção, mas para outros vira tormento — sobretudo para os mais de 22 mil e quinhentos homens e mulheres em situação de rua na capital fluminense. Com o papelão encharcado é impossível descansar. Não há lençol que aqueça, nem abrigo que proteja da água teimosa.


Falei em descansar, mas essa palavra não existe no dicionário deles. A noite costuma ser perigosa. Por isso, quando o sol clareou o Redentor no Corcovado, alguns ainda resistiam nas calçadas, tentando prolongar o pouco de sossego, antes que o movimento dos trabalhadores tomasse conta das ruas.



E logo chegaram as meninas da Defensoria, que ralaram duro para tirar o cheiro forte de xixi deixado pelos moradores das calçadas (afinal, água e banheiro também são raridade pra eles). Mais a frente, o meu xará, Anderson, rastejava-se em frente ao hotel. Mais um invisível que nem causava mal, nem bem.


Dei dois passos e já estava diante dele. Lancei um “bom dia” e recebi de volta um sorriso e um aperto de mão. Sim, ele estava mais pra lá do que pra cá. Foi então que lembrei do texto: “se a pessoa estiver no chão, nunca fale de pé, se abaixe. Ela vai se sentir valorizada”.

Bastou me agachar para aquele rosto ganhar outro sorriso, banguela, e dividir comigo um pedaço da sua rotina: “Fui em Botafogo comprar cachaça, fui. Mas esqueci lá”, contou, rindo sozinho.


O cheiro era de dias sem banho, de rua impregnada. Segui minha rotina tentando imaginar a dor que ele afogava no álcool e no peso de ser invisível para tanta gente.

Diante dessas imagens, que vi no coração do Rio, dois sentimentos são comuns: medo e indiferença. Para quem sente medo, tenha calma — eu também ainda me pego assim. Lembre-se: amor gera amor, nunca violência. Para quem escolhe a indiferença, entenda que nada é eterno. Um dia a gente desvia o olhar, no outro quer ajuda.



 
 
 

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