A difícil missão de ser criança em situação de rua
- 11 de jul.
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Era para ser apenas uma compra de medicamentos para tratar uma “rouquidão viral” – motivo pelo qual fiquei seis dias afastado do trabalho –, mas acabou se tornando uma imersão social na vida de quem, ainda na infância, já conhece as dificuldades comuns à vida adulta.
Enquanto aguardava minha vez na fila do caixa de uma farmácia, localizada no Bairro Jardins (Aracaju), fui abordado por uma menina negra e sorridente. Ela pedia ajuda para comprar alguns itens para a família. A mãe e os irmãos estavam próximos, em um semáforo a poucos metros dali. Como eu não tinha dinheiro suficiente, ofereci um chocolate. Ela aceitou prontamente, agora com um sorriso ainda mais largo. Acabei comprando duas barras, pois havia outra menina com ela.
Ao entregar os doces, aproveitei para conversar com as duas. A mais velha pediu ajuda para pagar por fraldas para o irmão recém-nascido, mas foi repreendida pela menor. Seguimos conversando. Foi assim que descobri os nomes e as idades delas: Sofia, 9 anos, completados no dia 23 de junho, e G. Sofia, 10 anos.
A mais nova era também a mais esperta. Disse-me que estava de férias e cursava a quarta série de uma escola cujo nome não consegui lembrar, localizada no Bairro Santa Maria. Curioso sobre seus sonhos, perguntei o que queriam ser quando crescessem. A menor respondeu:
— Tenho seis irmãos e quero ser médica.
Expliquei que o caminho seria estudar, e que, com dedicação, ela poderia realizar esse sonho. Disse que, quando ela estivesse mais velha, eu gostaria de reencontrá-la como médica, cuidando da minha saúde. Perguntei por que desejava seguir essa profissão:
— Para examinar o povo e fazer cirurgia. É caro, né, tio?
— Se você estudar direitinho, consegue entrar em uma faculdade gratuita. Aqui em Sergipe tem a Universidade Federal.
— Como é o nome mesmo?
— Universidade Federal de Sergipe.
— Ah...
Após essa conversa, a menina parecia traçar planos para alcançar seu sonho. Ela entendeu que, nas condições em que a família vivia, não teria como pagar pelos estudos e ainda sustentar a casa. Parecia ter consciência de que a educação seria o caminho para mudar sua realidade e tirar toda a família da pobreza geracional. Afinal, quando falta educação, dificilmente essas pessoas rompem o famigerado ciclo, o que acaba por perpetuar a pobreza, a fome e a submissão – vivendo as muitas opressões impostas por uma vida à margem de tudo.
Perguntei também à mais velha o que ela queria ser:
— Acho que vou ser policial, pra pegar ladrão.
E os sonhos não pararam por aí: a menor, sempre mais esperta, disse que estudaria muito, se tornaria milionária e compraria um carro – justamente ali perto, onde passava as tardes pedindo no semáforo. Já a outra queria algo mais simples, pois dizia não ter condições de comprar um carro e uma máquina (sem especificar qual).
Crianças de idades próximas, realidades parecidas e formas diferentes de enxergar a vida. Entre perguntas, respostas e gargalhadas, a mais nova comentou que, na escola onde estudava, havia crianças do abrigo. Perguntei se era o caso dela:
— Deus me livre.
A mais velha completou:
— O meu irmão é, porque minha mãe é usuária de drogas.
Como elas, há 10.044 crianças e adolescentes em situação de rua no Brasil, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG. Isso representa 3% dos 345.542 registrados no estudo, que considera dados do Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Federal, referentes ao mês de maio. São números que crescem a cada novo levantamento mensal.
Voltando a falar sobre as Sofias, é preciso investir em educação – ou os sonhos delas se perderão no caminho, muitas vezes mais atrativo e prazeroso, mesmo quando esse caminho cobra o preço da própria vida.
Cruzar os braços diante da realidade desses meninos e meninas é contribuir para a manutenção de uma cidade – e de um país – cada vez mais marcado pelo abismo social. Um abismo muitas vezes determinado por localização geográfica, outras pela limitação intelectual, e, infelizmente, também pela cor da pele.
O que não podemos é assistir a tudo isso com a mesma inércia daqueles que preferem governar para uma única massa: a que já tem seus direitos garantidos e respeitados. Precisamos gritar junto com essas mais de 10 mil crianças e adolescentes, até que os direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) sejam efetivamente conquistados.
E assim, contrariando a lógica capitalista, Sofia, de 9 anos, e G. Sofia, de 10, consigam realizar os sonhos de ser médica e policial.


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