top of page
Buscar

Dor e Silêncio: Filhas cobram justiça pela morte de Maghave*

  • 8 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Domingo, 10 de agosto, será o primeiro Dia dos Pais em que as sergipanas Luiza e Keila enfrentarão a certeza da ausência do pai — neste e em todos os outros domingos. Elas são filhas de Luiz Maghave de Souza, homem que vivia em situação de rua e, aos 37 anos, foi morto com um único tiro disparado por um policial militar que fazia a segurança do almoxarifado da PM, no Centro de Aracaju.


"Mataram ele com problemas psicológicos, e ele poderia melhorar. Eu poderia conviver com ele. Nem pude contar que estava grávida", desabafa Keila dos Santos, filha de Maghave.

Maghave vivia em situação de rua havia alguns anos, com passagens pelos equipamentos sociais do município de Aracaju, e lutava contra as crises de uma esquizofrenia incompreendida. A família afirma que, quando estava em tratamento, ele era uma pessoa de fácil convivência.


"Luiz Maghave de Souza, meu pai, foi morto covardemente. Ia reagir com o quê? Ele não tinha arma, não tinha faca, não tinha nada. Vocês (PM) fazem cursos para quê? Eu quero justiça!", afirma Keila.

"Quem tem esquizofrenia não se comporta como uma pessoa comum. Eles deveriam ter tido calma. Talvez meu pai estivesse apenas procurando algo para comer ou um lugar para dormir", disse Luiza dos Santos, outra filha de Maghave, em entrevista ao Portal FanF1.


O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Sergipe, sob responsabilidade da delegada Juliana Alcoforado. Como o inquérito está em andamento, o departamento só se pronunciará ao final das investigações.


Até o momento, a família — e ninguém mais — sabe ao certo o que aconteceu naquela quarta-feira, 23 de julho, no prédio da PM localizado na Rua Pacatuba. O Que Vem das Ruas esteve no local em busca de imagens, mas as câmeras “nada viram”. As duas que poderiam ter registrado tudo também silenciaram: uma estava com “defeito”; a outra, segundo informado, era “fake”.


Só não é fake a ausência de um pai que, por anos, sofreu as penalidades de conviver com as dores de uma saúde mental negligenciada, não tratada e estigmatizada pela sociedade. Desde o fatídico 23 de julho, a família sequer foi procurada — pelo Estado, PM ou SSP — para receber informações ou, ao menos, uma manifestação oficial de condolências.


Vivemos em uma sociedade que, em vez de discutir a saúde mental dos inúmeros Maghaves que vivem nas ruas em todas as partes do mundo, prefere justificar o tiro certeiro com um histórico que, segundo a família, não passa de acusações distorcidas, negativadas no laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Sergipe.


São meros factoides que criminalizam a vítima, alimentam um apartheid social fortalecido pelo tribunal das redes sociais e, o mais trágico, desviam o foco da ação desastrosa da PM e da urgente discussão sobre a saúde mental de pessoas em situação de rua.


Quantos Maghaves ainda precisarão morrer até que se entenda que saúde se trata com políticas públicas de Saúde e Assistência Social? Quando isso acontecer, a Segurança Pública poderá, de fato, cuidar da segurança. E a vida, por aqui, talvez volte a fazer sentido.


Em meio ao silêncio — ou seria silenciamento? — Luiza e Keila não queriam que o domingo do Dia dos Pais fosse assim. Certamente, desejavam o carinho e o abraço roubados pela doença mental e por um tiro certeiro, que covardemente ceifou a vida de alguém que ainda poderia viver por muitos anos, tratando a própria dor e, quem sabe, reconstruindo os laços familiares desfeitos pela vida nas ruas.


*Anderson Barbosa, jornalista sergipano Mestre em Comunicação (UFS), embaixador do Movimento Nacional OSE/Sergipe, finalista do Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos/2025.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page