Valdecyr Reis Lopes: o andarilho das artes
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Quilômetro 104 da BR-101, município de São Cristóvão (SE). No trecho, o fluxo incessante envolve viajantes de todo o país na véspera do feriado prolongado da Semana Santa de 2026. O local serve como rota para produtos que movimentam a economia nacional e para pessoas em busca de descanso.
Às 8h daquela quinta-feira, o calor já castigava o corpo do engenheiro de formação, Valdecyr Reis Lopes, de 60 anos. A pele castigada pelo sol é o registro de 46 dias de uma jornada de mais de 1.500 km, partindo de São Luís (MA) até o posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF), na Região Metropolitana de Aracaju.
Além da roupa no corpo, ele carrega um bornal e uma sacola com mangas colhidas à beira da estrada. Os frutos servirão de sustento para as próximas horas e, pela quantidade, permitem o compartilhamento com quem cruzar seu caminho. Entre os poucos pertences, restam uma garrafa d'água e a Carteira de Identidade Nacional.
Há uma década em situação de rua, o maranhense natural de São Bento, nascido em 20 de dezembro de 1965, estava de passagem por Sergipe. Pela frente, restam ainda 316 km até Salvador (BA). Um dos propósitos que o motivaram a deixar sua terra natal foi o desejo de compreender a realidade daqueles que, como ele, habitam as calçadas da Região Nordeste.
"Já percorri Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e agora Sergipe. Quero conhecer o país, a cultura de cada estado e entender como vivem as pessoas em situação de rua. Só se pode falar de quem mora na rua quando se convive com elas", afirmou.
Valdecyr defende que essa população necessita, primordialmente, de acolhimento. Ele fala com propriedade, tornando-se porta-voz de mais de 355 mil brasileiros que enfrentam a mesma condição, muitos à espera de uma chance para transformar a própria trajetória.
"É preciso simplicidade, compaixão e educação para superar desafios como a dependência química. Não há barreiras quando se busca o diálogo; as dificuldades surgem na mesma proporção da arrogância humana", reflete.
O engenheiro revela que possui família, mas, por não ter sido um pai presente, compreende que não deve fazer exigências no momento. Enquanto caminha, Valdecyr sobrevive de sua expressão artística, pintando em papel e retalhos de tecido.
“A inspiração vem das casas do interior, do cotidiano local e até do desenho das nuvens. Minha próxima parada é Salvador; lá, pretendo comercializar minhas pinturas”, concluiu.




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