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Marcelo Moreno: andarilho movido pela fé e pela música

  • 25 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Quem fica frente à frente com José Marcelo Honório não faz ideia de quantos quilômetros já rodou à pé por este país continental chamado Brasil. Também não imagina a metade das dificuldades escondidas no olhar vívido e no sorriso fácil. Mas quem observa os detalhes desnuda pouco a pouco as dores que gritam no silêncio.


Antes de seguir por essa estrada, vale uma parada em São José da Tapera, cidade distante 240 quilômetros da capital Alagoana. Marcelo nasceu neste lugar, no Dia das Crianças, em 1980. Anos depois, descobriria que era um dos 21 filhos registrados em nome do pai dele. Diferente do patriarca, Marcelo teve três filhos. Se a memória não o traiu, o mais novo tem 9, o do meio 11 e o mais velho 13 anos. São meninos que crescem longe do afeto paterno.


Quando encontra uma pedra no meio do caminho, Marcelo fecha os olhos, solta a voz e louva. Cantar para ele é colocar-se no colo do Criador.


“Pra Deus eu sou profissional, para o mundo eu não sei”, afirma.

A voz marcante o transformou no artista Marcelo Moreno. Na cidade natal cantava na praça, no bar, nas festas particulares e onde quer que fosse chamado. A internet está cheia de vídeos e fotografias dele se apresentando - um desses registros na emissora de rádio da cidade.


“Tinha minha própria banda: ‘Marcelo Moreno’. Fazia minhas festinhas, tava dando tudo certo, tinha aberto um clube. Foi lotado na abertura”, revive na memória.

Marcelo é andarilho. Já teve um violão para acompanhar a voz. Perdeu para a violência das ruas e hoje canta solitário. “Já me doaram vários violões, quando estava no trecho, em São Paulo, Minas e Bahia era roubo de instante em instante. Não segurava coisa de oito dias. Hoje, sim, vou poder alugar meu quartinho e ficar de boa e voltar a estudar de novo. Quanto mais você busca conhecimento sobre aquilo que você quer, mais profissional você fica”, disse esperançoso de dias melhores.



A atual companhia? As lembranças e uma sacola cheia de medicamentos. Com eles, consegue melhorar a memória e resgatar as lembranças mais recentes, nem sempre acessa com facilidade. Às vezes, lembrar da letra da música entoada nos momentos de maior dificuldade dá uma trabalheira danada. Dessa vez só conseguiu ao sentir outra vez o toque do violão – desta vez emprestado por um voluntário da Pastoral Povo da Rua (Arquidiocese de Aracaju): “Entra na minha casa, entra na minha vida...”.


Sim, ele é um homem de muita fé, que também sabe da importância da medicina para cuidar da depressão que o fez largar tudo no interior alagoano e buscar um sentindo nas estradas da vida. “Espero que Deus faça a mudança na minha vida e na vida de todos”, afirmou.


Vida de andarilho

A maratona como andarilho começou durante a pandemia da Covid-19 no estado de São Paulo. Após ficar cerca de 15 dias com os irmãos sentiu a necessidade de se virar. “Minha cabeça começou a não funcionar mais e aconteceu de eu ganhar a rua. Tudo por causa de separação de família. A gente sem a nossa mente não é ninguém”, revela.


Marcelo pegou a BR e foi para São Vicente, Santos, Praia Grande, Mamanguá, Itanhaém, Peruíbe, fez um caminho de volta, passou em Guarujá, Bertioga, Boiçucanga, Maresias, São Sebastião, Ilha Bela e Caraguatatuba.


“Entrei no Rio de Janeiro por Paraty e Angra dos Reis. De lá voltei tudo de novo, porque o Rio tava muito violento. De Guarujá atravessei os coiotes, peguei a BR novamente e fui parar em São Paulo, capital. Lá fiquei no Arsenal da Esperança (casa de acolhimento do Serviço Missionário de Jovens, fundada em 1996) por cinco dias, porque não podia ficar com meu violão. Para a direção da casa, as cordas do violão poderiam ser vir de arma. Então, ele dormia fora do abrigo. Isso me dá uma tristeza”, disse emocionado.


O violão era a única companhia de Marcelo, servia até de terapia.


“Se tem guarda-volume, por que que não guardavam lá e eu pegava na hora que fosse precisar? Meu violão era o que me ajudava a vencer a depressão”, contou.

Depois de conseguir se desligar da instituição e retomou a estrada pelo interior de São Paulo até acessar o estado de Minas Gerais. “Toquei violão em várias cidades e depois fui para Goiás, onde fiquei por uns 15 dias. Depois voltei para Minas e entrei na Bahia, depois Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Por causa da violência desci para Alagoas e Sergipe, onde estou há 12 dias. Aqui está melhor de sobrevivência, tem menos violência”, revelou.



Ensinamentos da rua

Os cabelos cachados, a barba com tufos brancos e o sorriso faltando alguns dentes revelam que a vida não foi tão boazinha com ele. Quem passa por essas condições, tem os direitos básicos roubados - como o da cidadania - e de quebra é tomado por um vendaval mental.


Com quase meio século de vida, José Marcelo, além de aprender a sobreviver nas condições adversas tem a Fé como maior lição.


“Aprendi muito que Deus existe (faz uma pausa e chora). Foi aonde eu mais conversei com Ele, cara, e Ele me respondia”, disse.

Na primeira vez que passou pelo estado de Sergipe teve uma prova que mesmo sendo “invisível” para parte da sociedade – e até mesmo pelas políticas públicas - nunca deixou de ser visto por Deus. Ao parar na praia dos Artistas, na divisa do mar com o rio, resolveu tomar um banho pra tirar o cansaço.


“Estava muito sujo e fui tomar um banho pra tirar até o grude do meu corpo. Não vi que era uma área perigosa e quando mergulhei nadava pra frente e a maré me levava para o meio do mar. Fiquei muito longe e comecei a entrar em desespero. Eu só ouvia uma voz que dizia: ‘Não fique em desespero. Mantenha a calma, tenha calma. Vire de costas e comece a boiar’. Fiz isso, nadei junto com a maré e me salvei”, relembrou.


Marcelo dizia o tempo todo que não queria morrer assim e repetia. “Senhor, se eu morrer agora, quem é que vaio dizer todos os dias: ‘não tenho nada a reclamar, só agradecer?’ Quem vai dizer isso para o Senhor. Foi onde aconteceu que ele me ouviu”, contou enxugando as lágrimas.


O alagoano conhece bem os altos e baixos da vida, ainda assim, busca ‘fazer do limão uma limonada’. “A vida é uma roda gigante, tudo gira e conforme isso acontece você pode passar porá algumas dificuldades para aprender um pouco mais. Hoje eu sou um cara mais inteligente, um cara mais cabeça e estou aí, mano, com muita fé em Deus, e dizendo: ‘só Ele na minha vida’”, reafirma.




 
 
 

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