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Como anda a Saúde Mental das pessoas em situação de rua?

  • 18 de ago.
  • 13 min de leitura

Atualizado: 24 de out.

Por Anderson Barbosa, jornalista/Mestre em Comunicação pela UFS.



A invisibilidade que o tempo ainda não levou
A invisibilidade que o tempo ainda não levou

A Lei nº 15.187/2025, sancionada há poucos dias, instituiu o 19 de agosto como o 'Dia da Luta da População em Situação de Rua' no Brasil. Tudo começou com o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) para não deixar cair no esquecimento o Massacre da Sé, em São Paulo, ocorrido no ano de 2004.


Nas madrugadas dos dias 19 e 22 de agosto, seis policiais e um segurança foram acusados de matar sete pessoas em situação de rua enquanto dormiam na praça. Os golpes de cassetetes também deixaram outras seis feridas.


Diante de tantas negações de direitos e violências sofridas: o que há para celebrar nesta data? Como anda a saúde mental delas?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que 12% da população global sofre de algum transtorno mental. Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) apontam cerca de 20% dos brasileiros convivendo com ansiedade ou depressão. Entre elas, homens e mulheres em situação de rua. Números que não param de crescer por causa do estigma social e da dificuldade para acessar o tratamento.


Quem consegue um diagnóstico e inicia tratamento medicamentoso (com drogas lícitas) lida mais fácil com as crises de ansiedade. Já quem não tem essa oportunidade, “foge dos sentimentos” por meios alternativos, nem sempre benéficos ao controle emocional. Como o uso do cigarro, do álcool e das outras drogas ilícitas que geram dependência química e destroem pouco a pouco essas pessoas.


Um mesmo problema, soluções diferentes — capazes de provocar um abismo social ainda maior. De um lado os que controlam as crises com medicamentos; do outro, os que, mal têm alimento diário para sobreviver, e são engolidos pelos medos e frustações. Nesta ponta estão as pessoas em situação de rua.


Um estudo desenvolvido pelo professor da Faculdade de Medicina da Universidade Luterana do Brasil, César Augusto Trinta Weber, em parceria com o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) do Rio de Janeiro, Antônio Geraldo da Silva, aponta falhas ligadas, muitas vezes, à ausência de políticas públicas bem estruturadas, passando pelo acesso desigual aos tratamentos e pela estigmatização dos transtornos mentais.


Os pesquisadores reforçam a necessidade de protocolos mais humanizados, buscando a melhoria dos pacientes e familiares para atender aos cerca de 3,5 milhões de pessoas que vivem com dependência química:


“A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) apresenta falhas estruturais, como a escassez de unidades de acolhimento para dependentes químicos, agravando a exclusão e o sofrimento dessas pessoas. A questão da acessibilidade ao tratamento psiquiátrico também é um gargalo. Com menos de um psiquiatra para cada 100 mil habitantes em muitas regiões, o Brasil enfrenta uma crise de atendimento especializado".


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O levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que mais de 351 mil pessoas vivem nestas condições no Brasil. Em Sergipe, são 1.545, sendo a maioria na capital (1.174). São pessoas que enfrentam grandes barreiras para serem entendidas e aceitas no serviço público de saúde, ainda que a legislação dê essa garantia.


Esse público vulnerável, que não para de crescer nos números do Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Brasileiro, lida diretamente com a problemática da fome e da miserabilidade. Mas qual a relação disso com a saúde mental?


“Nenhum médico jamais me disse que a fome e a pobreza podem levar ao distúrbio mental, mas quem não come fica nervoso. Quem não come e vê seus parentes sem comer pode chegar à loucura. Um desgosto pode levar à loucura. Uma morte na família. O abandono do grande amor".

O trecho acima é de uma das falas do Sr. Wilson Souza, interpretado por Othon Bastos, no filme Bicho de Sete Cabeças (2002), e comunga com a análise do relatório da The Food Foundation (Pushed to the brink: the UK’s interlinked mental health and food insecurity crises).


A pesquisa ouviu pessoas que enfrentaram insegurança alimentar e, dessas:


  • 72% apresentaram sintomas de ansiedade;

  • 66,5% sintomas de depressão;

  • 71% acreditavam que os efeitos da insegurança alimentar poderiam impactar a saúde física;

  • e 66% comprometer a saúde mental.


O estudo Insegurança alimentar e sintomas depressivos em idosos atendidos pela Estratégia Saúde da Família na Região Nordeste do Brasil foi ainda mais cirúrgico: “Na análise multivariada, domicílios com insegurança alimentar leve apresentaram três vezes mais chances de desenvolver sintomas depressivos, enquanto aqueles em insegurança alimentar moderada/grave tiveram cinco vezes mais chances”. Imagine quem nem um lar tem pra chamar de seu e vive rodeado por um histórico que levaram à situação de rua.


A realidade apresentada em números, na tela do cinema e nas conclusões científicas serve para mostrar como a saúde mental das pessoas em situação de rua não pode ser negligenciada, vista apenas no papel. Ela precisa chegar à base, evitando que essa loucura provoque ainda mais destruição.


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Caso 1 - Sentimento de Abandono Materno

Um lar que não é um lar. É uma clareira aberta no manguezal às margens do Rio Sergipe, entre as cidades de Barra dos Coqueiros e Aracaju. O bueiro, por onde durante anos escorreu parte do esgoto da capital, agora serve de guarda-roupa para Marília (nome fictício para proteger a identidade dela) e abriga os poucos pertences que a vida nas ruas ainda permite.


A antiga tubulação também serve de cama, onde a mulher de pele negra e corpo esquelético se esforça para enfrentar os fantasmas de uma mente perturbada pelas lembranças. As noites solitárias só não são piores graças à presença da cadelinha Bela, sua fiel companheira.


“Aqui ninguém mexe comigo. Todo mundo me conhece. Sou muito querida. Quando você sair, vão perguntar o que estava fazendo aqui”, assegura, ex-técnica de enfermagem.

O espaço onde passa os dias e as noites tem cerca de quatro metros quadrados. Apesar de ficar sempre limpinho, costuma ser invadido pelo sobe e desce da maré. Se chove, é impossível secar as poucas roupas no varal improvisado nos galhos do manguezal. Nestas condições, os roedores também são vistos com frequência. “Tenho medo, não”, diz, rindo da situação.


Marília tem 30 anos e há mais de uma década vive em situação de rua. O corpo saudável de antes foi destruído pelo vício. Na tentativa de se livrar da dependência, já passou por três clínicas de recuperação em Sergipe.


“O crack é mais forte do que eu. Queria tanto largar”

O desabafo é com o corpo trêmulo, pupilas dilatadas e uma leve sudorese após ter fumado a terceira pedra da droga, comprada ali mesmo. Ela garante que o efeito passa em minutos e já, já tudo fica bem.


Entre delírios e realidade, a saudade da família vem à tona, especialmente da mãe, que mora a poucos quilômetros dali. “Ela sempre me chama pra ir pra casa, mas não me acostumo, não. Fico uns dias lá e volto. Ela sempre me visita e traz umas coisinhas, material de limpeza e higiene”, conta.


Quando lembra da infância, a voz embarga e os olhos enchem de lágrimas: “Quando eu tinha uns 7, 8 anos, minha mãe me entregou para ser criada pelo meu avô. Chorei muito. Queria estar do lado dela, mas éramos muitos irmãos e ela não me quis. Preferiu me dar para o meu avô, que tinha mais condições. Mas eu já perdoei”, diz, entre lágrimas.


Apesar do ressentimento, Marília reforça várias vezes: “Eu já perdoei minha mãe. Amo ela demais. Só não consigo mais morar lá.”


A agitação e o medo fazem parte dos efeitos da droga. Ainda assim, ela garante que está tudo sob controle. “Não se preocupe, eu vou ficar bem. Aqui todo mundo gosta de mim.”


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Caso 2 - Sentimento de Perda Paterna

A pernambucana Mirele Sales é mãe solo de dois filhos, um deles autista. Viúva há 13 anos, sobrevive com poucos recursos vindos de benefícios sociais do Governo Federal. Mais difícil do que vencer o problema financeiro é a luta dolorosa travada para salvar o filho José Leonardo, 18 anos.


“Ele sempre foi um bom menino. Se envolveu com drogas há pouco tempo, mas sempre foi muito carinhoso. Faço de tudo pra que saia dessa”, conta.

Leonardo perdeu o pai aos cinco anos de idade e a ausência repentina trouxe dor e sofrimento.


“Ele era muito apegado ao pai e não acreditava que tinha morrido. Não quis ir ao velório nem ao enterro. Às vezes acordava à noite chorando, dizendo que o pai estava em pé na porta do quarto. Tive que mudar de casa”, lembra emocionada.

A ferida que nunca foi fechada mantém as sequelas até hoje. Há pouco mais de um ano, quando descobriu o envolvimento do  filho com as drogas, Mirele conseguiu interná-lo em uma clínica de recuperação no estado de Pernambuco. Depois foi transferido para outra em São Cristóvão (SE), onde permaneceu por seis meses até desaparecer.


“Disseram que ele saiu para uma atividade no dia 23 de julho e nunca mais voltou. É muito estranho. Falaram que viram ele dormindo nas ruas, próximo à Ceasa de Aracaju. Se ele estiver vivo, vai saber que estou muito preocupada. Eu falava com ele todos os dias”, lamenta.


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Os Traumas da Infância

Para o jornalista Gilberto Dimenstein, quando alguém chega a viver em situação de rua é porque todos os sistemas de proteção à cidadania falharam, virando um problema social nem sempre cuidado como deveria. Muitas dessas pessoas carregam dores mal curadas que, com a situação de vulnerabilidade, buscam o bálsamo nas drogas.


“O vício não é uma escolha nem fundamentalmente uma doença. Ele se origina de uma tentativa desesperada do ser humano de resolver um problema: o problema do sofrimento emocional, do estresse avassalador, da dor da perda de controle, de um desconforto profundo consigo mesmo. É uma tentativa mal-fadada de solucionar o problema da dor humana”, a explicação é do médico e escritor húngaro-canadense Gabor Maté no livro Vício: O Reino dos Fantasmas Famintos.


Ainda segundo ele, crianças com histórico de perdas severas ou abusos sexuais têm mais chances de se tornarem adultos dependentes de álcool e drogas — uma tentativa de silenciar traumas não superados.


“Os alvos dessa batalha são aqueles que foram mais negligenciados e oprimidos na infância, pois, de acordo com todos os dados científicos, com todos os dados epidemiológicos, com toda a experiência, são eles os mais propensos a sucumbir à dependência química no futuro. Em nossa era civilizada, punimos e marginalizamos pessoas por terem sofrido traumas”, completa.




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Julgamento e Criminalização do Sofrimento Mental  

No ano passado, o artigo "Prevalência de transtornos psiquiátricos de pessoas em situação de rua em um grande centro urbano no Brasil", publicado na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (RBMFC), revelou que 29,8% dos entrevistados tinham ideação suicida, 55,7% faziam uso semanal de álcool, 34,2% uso semanal de drogas ilícitas e 62,3% apresentavam problemas com sono.


Também em 2024, o Censo da População em Situação de Rua Aracaju apontou que 19,7% dessas pessoas precisam de apoio para vencer a dependência química (álcool/drogas) e 14,8% enfrentam transtornos mentais. O cenário mostra a necessidade de políticas públicas com ações especializadas para o atendimento a esse grupo vulnerável. Porém, o que se observa muitas vezes é a criminalização dessas pessoas, que chegam a pagar com a própria vida, quando deveriam ser envolvidas em grupos de apoio e tratamento.


O mesmo Censo mostra como esses problemas são negligenciados pela rede de apoio, que impõe ações de segurança pública, deixando de lado o trabalho da saúde e da assistência social. Cerca de 63% dos entrevistados já sofreram algum tipo de violência, 40% afirmaram que os agentes da segurança pública foram os autores, 31% apontaram outro morador em situação de rua e 10% os transeuntes.


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Na madrugada do dia 23 de julho de 2025, Luiz Maghave de Souza, homem diagnosticado com esquizofrenia e que vivia em situação de rua na região central de Aracaju, foi vítima da negligência nesse tipo de saúde pública. Aos 37 anos, foi morto com um único tiro disparado por um policial militar que fazia a segurança do almoxarifado da Polícia Militar.


O caso foi abafado por dias, até que os movimentos sociais conseguiram levar a denúncia ao Ministério dos Direitos Humanos, que cobrou explicações do Estado e a aplicação da Política Nacional para a População em Situação de Rua. O Departamento de Grupos Vulneráveis (DAGV) de Sergipe não vai comentar o caso até que as investigações sejam concluídas.

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Horas antes, um homem com transtornos mentais ficou por mais de meia hora sob a mira de uma arma de fogo no centro de Aracaju. Testemunhas disseram que ele entrou em um estabelecimento comercial no calçadão pra pedir comida. Como negaram, começou a gritar e ameaçar as pessoas, mesmo sem portar arma alguma. Um policial penal, que passava ao lado, fez a abordagem e ameaçou atirar. A PM chegou e levou preso.


Em fevereiro, um homem em situação de rua foi covardemente espancado no Terminal Rodoviário Governador José Rollemberg Leite, na Zona Oeste de Aracaju, por dois seguranças da Socicam, grupo responsável pela administração do terminal. Ele teve ferimentos no rosto e buscou ajuda no Hospital de Urgência de Sergipe.


No ponto de ônibus a poucos metros do Mirante da Treze de Julho, bairro nobre de Aracaju, um homem em situação de rua já é parte do cartão postal. Há meses, dorme no local e ao acordar refaz o hábito de limpar o assento e dobrar os lençóis. Depois permanece sentado o dia e à noite, como se esperasse alguma coisa. Quando mais disposto, faz caminhadas na pista ignorando os riscos do trânsito caótico do início da manhã.


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A Sociologia das Ruas

Para entender o fenômeno das ruas e as múltiplas necessidades das pessoas que vivem nessas condições, o Que Vem das Ruas conversou com o sociólogo Matheus Barros. Como especialista na temática, ele entende ser necessário evidenciar os mecanismos de opressão, apontando como as dinâmicas sociais constituem as mais diversas relações e podem estar a serviço de processos de subjugação.


“O que a sociologia vem tentando mostrar é que os marcadores sociais, ou suas dinâmicas, não apenas colaboram, mas operam de maneira decisiva na estruturação das condições de vida dessas pessoas. Não se trata, portanto, de uma questão exclusivamente de escolha individual. Entre a população em situação de rua, observamos com frequência a ausência — ou, ao menos, o descompasso — de vínculos institucionais”, justifica.

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Para Barros, é essencial compreender a realidade dessas pessoas, marcadas por rupturas familiares, escolares, no mercado de trabalho e no pertencimento comunitário. “Ignorar que essas condicionalidades afetam profundamente as trajetórias que levam ao viver nas ruas é praticamente descartar boa parte dos elementos explicativos que fundamentam a compreensão desse fenômeno”, completa.


Os dados gerados, a partir deste cenário, ajudam na formulação de caminhos que levem à transformação da realidade, funcionando como ferramenta de mudança.


“A sociologia pode oferecer subsídios fundamentais para a construção de políticas públicas, atuar no combate ao racismo e aos diversos estigmas associados à população em situação de rua, além de contribuir para a formulação de tecnologias sociais que viabilizem novos modelos de institucionalidade. Pode, ainda, fortalecer a defesa da dignidade humana, auxiliar na elaboração de novos aparatos legais e ampliar os instrumentos de garantia de direitos. Em suma, nós, enquanto sociólogos e sociólogas, temos muito a oferecer à transformação concreta da realidade das pessoas em situação de rua”, conclui.


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A Saúde Mental dessas Mulheres

Doutora em enfermagem e pesquisadora, Keila Costa lida diariamente com essas histórias vividas por mulheres em situação de rua. De acordo com ela, a constante exposição a riscos físicos, emocionais e sociais gera níveis elevados de estresse, sofrimento psíquico e adoecimento mental, exigindo a aplicação de políticas públicas inclusivas, com estratégias intersetoriais.


"Muitas dessas mulheres carregam trajetórias de ruptura de vínculos familiares, histórico de violência doméstica, abuso sexual, desigualdades de gênero, pobreza extrema e uso problemático de álcool e outras drogas, fatores que, somados, fragilizam ainda mais seu bem-estar psíquico. Além disso, a condição de estar em situação de rua acentua a sensação de invisibilidade social e de desamparo, reforçando sentimentos de desesperança e solidão", explica.


O cuidado integral, que deveria ser uma constante na vida dessas mulheres marcadas por estigmas e discriminação, é uma realidade cada vez mais distante e reforça a exclusão em serviços de saúde importantes para o exercício dos vários papéis desempenhados por elas.


A saúde mental fica ainda mais sensível durante a maternidade/maternagem, ao ter esse direito cerceado pelos organismos que deveriam ofertar proteção.


"Muitas vezes, a possibilidade de exercer o papel materno é atravessada por intervenções estatais, como a retirada compulsória dos filhos, gerando dor, luto e desestruturação subjetiva. A saúde mental das mulheres que possuem seus filhos retirados de forma arbitrária, nomeada de 'desmaternização', pode ser prejudicada diante de tanta violação", pontua.

Segundo a especialista, a separação ganha status de roubo, sequestro, desaparecimento do filho, associado ao sentimento de culpa dessa mulher. Tudo isso pode provocar a chamada "gravidez de repetição", uma tentativa de reparar a perda.


"Esta nova gravidez pode significar escolha, perda, trauma, repetição, injustiça, separação e elaboração. Mas essas mulheres se deparam novamente com a não efetivação dos seus direitos, e a destituição do poder familiar apresenta-se como um fracasso materno, no âmbito pessoal e da sociedade. Essa nova gravidez pode originar um pré-natal e parto sem acompanhamento, oriundos, muitas vezes, do aumento do consumo de álcool e outras drogas", afirma Keila.


O estilo de vida e o histórico dessas mulheres exigem "uma abordagem que ultrapasse a dimensão biomédica, reconhecendo os determinantes sociais, culturais e afetivos do adoecimento. A atenção integral deve incluir escuta qualificada, práticas de cuidado pautadas na redução de danos, fortalecimento de vínculos e respeito às especificidades de gênero".


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Quem cuida?

Em Aracaju, o Consultório na Rua, estratégia prevista na Política Nacional de Atenção Básica - da Secretaria da Saúde de Aracaju, leva atendimento de saúde às pessoas em situação de rua com equipes multiprofissionais que atuam de segunda a sexta-feira, das 7h às 23h. Entre janeiro e abril de 2025 foram 2.280 atendimentos.


Ainda assim, o acolhimento é limitado: são apenas 90 vagas em abrigos municipais para uma população de 623 pessoas vivendo nas ruas. A maioria permanece desassistida.


A Secretaria informou por nota que atua com uma equipe composta por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e redutores de danos. E leva cuidados e acolhimento aonde essas pessoas estão.


"Entre os cidadãos frequentemente acompanhados está o senhor que permanece no ponto de ônibus próximo ao mirante da 13 de Julho. A equipe tem feito diversas tentativas de aproximação, mas ele ainda apresenta resistência ao atendimento. Mesmo assim, o trabalho continua, com respeito à sua autonomia e com a persistência necessária para garantir seu acesso à saúde", diz a nota.


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AMI-SE

Júnior Tuca teria tudo para se afundar nas dores emocionais que o levaram ao uso de substâncias químicas como crack, álcool, cigarro, cocaína e maconha, além dos jogos de azar. Ele usou drogas dos 13 aos 31 anos, chegou a viver em situação de rua, passou por internações e foi preso.


"Vivi afundado na depressão, na culpa e na insanidade. Fui preso diversas vezes, internado 13 vezes em clínicas psiquiátricas, reabilitações, hospitais. Fumei o carro. Fumei os móveis. Fumei os sonhos. Fumei a vida. Destruído e envergonhado, tentei tirar minha própria vida. Queria acabar com a dor, mas Deus quis me dar um recomeço", revela.

Depois de muitas lutas internas, criou há 12 anos, em Aracaju, o grupo AMI-SE – Ajuda Mútua de Incentivo à Sobriedade, para ser um encontro de apoio a quem precisa se libertar do vício. Nesse período, mais de 24 mil pessoas foram assistidas por meio das reuniões gratuitas e de forma anônima.



Tuca explica que o espaço é de acolhimento, escuta e esperança para dependentes químicos, alcoólatras e familiares. No grupo, as histórias são ouvidas sem julgamentos e servem como remédio. A missão é ser referência em recuperação, apoio emocional e transformação pessoal.


"Cada abraço dado é um sinal de que ninguém precisa lutar sozinho, e cada 24 horas conquistadas vira motivo de celebração. Somos vozes que acolhem, braços que levantam e corações que não desistem. Mais que um grupo, somos uma família em reconstrução", conta.

Tuca está limpo (sem fazer uso de drogas), sóbrio e em recuperação há 14 anos e 2 meses.


"A luta é diária. A adicção é progressiva, incurável, mas tem tratamento. E eu sou a prova viva disso. Ajudar o outro é me ajudar. A recuperação é minha missão de vida", conclui.

Conheço o trabalho da AMI-SE na página do Instagram.


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